2009

 

Dans mes rêves

Cité Internationale des Arts

Paris, França

Música: Ruth Bonucelli

Fotos: James Harkin

[Nos meus sonhos]

O desenho é um exercício sobre mim. Um exercício de tocar minha alma, minhas fantasias e a maravilha do meu mundo. 

 

Num outro momento, o foco era o mundo lá fora e eu desenhava a rua, o poste, as pessoas, as árvores; agora é olhar pra dentro, do jeito que eu sabia fazer quando eu era criança e meu pai me chamava de Nina: “Vai Nina, vai ver as bolhinhas da onda do mar”.

 

Num tempo em que tudo era simples e declarado e eu não pensava sobre o que existia dentro de mim, eu só sentia.  Tinha a alma despida.

 

E como se desenha "o dentro”? 

 

O desenho me contou que é tocando os sonhos. Sonhos, não como aqueles que a gente tem quando dorme, esses também, mas como realidades criadas, o libertar do imaginário, como forma de fazer tudo possível — flexibilidade mental.

 

Sonho como capacidade de despir novamente a alma, escutá-la, perder a vergonha de ver o que tem no fundo da gente e trazer pra fora, para a luz do sol, do meu sol, da minha luz. Da centelha de luz que veio morar em mim.

 

Pra ficar assim, olhando eles nas mãos, que é onde eles se deixam olhar mais fácil, e então poder decidir como desenhar a realidade em que queremos viver. 

 

É preciso desenhar, desenhar, desenhar, desenhar isso ou aquilo, desenhar a cada hora, a cada minuto. É assim — você começa e uma hora o desenho vai dizer o que ele quer. 

Eu obedeço e sigo com a linha. 

 

Em mim o desenho se confunde com a vida. É uma maneira de existir e gostar disso. Uma maneira de construir uma realidade. Afinal, la réalité est quelque chose qui peut être construit comme on veut, au moyen d’encre et d’une ligne sur le papier — poésie. Desenhar não é um projeto. 

 

Não é uma tese sobre algo ou alguém. É uma forma de ver e fazer disso um registro. Não é um mapa que foi encontrado, mas um mapa para encontrar alguma coisa (não me lembro mais quem me disse isso).

 

Não é um fim, mas um meio. Um pensamento aberto.  Sem moldura. Livre no ar.

 

É uma anotação de um sentimento, uma lembrança, uma vontade que vira linha, luz, cor, forma, espaço e enquadramento. Um caminho que leva a algum lugar. A muitos lugares.

Assustador e maravilhoso.

 

É uma maneira de se libertar e aceitar a imoralidade da alma. Desenhar exige libertação. Libertação exige auto conhecimento e este, por sua vez, só vem à tona, quando a gente remexe tudo que tem dentro de nós e colocamos para o lado de fora pra olhar e decidir o que fazer com isso. É um remexer nos sonhos sem crítica.

 

Passei então a desenhar a paisagem interna e apresento aqui um mar de sonhos. Uma coleção de pequenas liberdades que juntas podem nos fazer sair nadando.

 

O desenho se tornou forma de amor.

Marina Ayra, junho 2009